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quarta-feira, julho 03, 2019

A Cela

Tive um sonho estranho. Um sonho ruim.
Ah, esses sonhos... Despertam tanto em mim...
Não é fácil tentar achar um sentido para eles.
Não porque não sei o que pensar. Mas sim porque dói.
Tem muita coisa entalada ainda. Muito a dizer.
Muitas vezes me pego a ponto de chorar. Mas não me permito.
Tento compensar a tristeza com a raiva.
Deveria estar só triste, mas não suporto minha tristeza.
Pensando bem, a raiva (também) é de mim mesma.
Como é que cheguei a esse ponto?
O medo de ficar vulnerável, o medo de me expor, o medo de não ser amada...
Tantos medos me fizeram prisioneira de mim mesma.
Vou até mim, abro a cela. Mas não me reconheço.
Talvez depois de um tempo isso seja possível.
É, às vezes eu consigo me enxergar em meu olhar. Vejo por uma fração de segundo todas as Anas ao longo desses 26 anos. Não me sinto exatamente como nenhuma delas, mas ao mesmo tempo me sinto como todas.
Todas são eu. E sou todas elas.

segunda-feira, julho 01, 2019

"Existe mulher que não sofre?"


Que mundo é esse em que vivemos em sofrimento?
Sofremos com nossos corpos que nunca atingem o padrão inalcançável Ou com o rótulo de “exibidas” se gostarmos do que somos.
Sofremos com as conseqüências biológicas de simplesmente sermos mulheres. As malditas dores que nos deixam vulneráveis, mas que não são desculpa para não nos arrumarmos e fingirmos que está tudo bem, quando, na verdade, só queríamos deitar na cama quentinha e esquecer do mundo lá fora.
Sofremos com nosso desejo. Se queremos demais, somos putas. Se queremos de menos, somos frígidas.
Querer uma mulher?
Querer uma mulher e um homem? Pior ainda.
Sofremos pela rivalidade feminina nos ensinada desde o berço.
Sofremos com nosso silêncio. Mas se ousamos falar, “pra que tudo isso?”.
Sofremos com o silêncio dos homens, que no alto de seus privilégios nada fazem por nós.
Sofremos ao sermos mães. E com a busca em ser a mãe perfeita.
A esposa perfeita.
A amante perfeita.
A profissional perfeita.
...
A mulher perfeita.

Nossas feridas são motivo de orgulho, como se, de alguma forma, elas representassem medalhas por nossas vitórias diárias.
Mas as medalhas de verdade nunca vêm. E nunca virão. E eu queria não precisar de medalha alguma.
Somos fortes, porque precisamos ser. Não é bem uma escolha. Ganhar mérito por isso chega a ser um tanto... perverso.

Mas ser mulher tem lá suas vantagens. O enigma abre espaço para moldarmos quem queremos ser. E que delícia poder escolher.

A Minha Verdade

(31/06/2019)

Já faz muito tempo que me calo em pensamento.
Sou inundada pela raiva e mágoa por todas as vezes que me feriram sem saberem.
Um comentário inocente na verdade era um disfarce para o ódio gratuito. E que eu, na minha esperança em ser aceita, engoli em seco todas as vezes. Dizia para mim mesma que era preciso respeitar o pensamento antiquado das gerações passadas.
Hoje, abro a porta e convido-os a se retirarem, pois a minha verdade vale mais.
A verdade é que o colo que desejo é feminino.
O perfume preferido é feminino.
A voz que me acalma é feminina.
O corpo que me aquece é feminino.
Quero poder falar de amor sem censurar o meu desejo.
Quero fazer planos sem ter medo.
Quero suspirar quando penso nela sem podar o meu amor.
Quero fantasiar sem minha auto-reprovação.
Quero terminar esse texto sem culpa.
Culpa por ser diferente.
Culpa por não me encaixar.
Culpa, principalmente, por não conseguir me libertar.
Depois de tanto tempo, ainda dói.

quarta-feira, junho 26, 2019

A Cama


As noites de solidão me afligem.
Beira o insuportável. Só consigo tolerar porque sei que nosso amor é tão gostoso.

Da última vez que você voltou, até fiquei surpresa. Minhas lembranças não faziam jus a você. Você sem dúvida é melhor do que qualquer sonho meu.
Quando eu, na minha neurose, sou inundada de insatisfações, você me surpreende das formas mais simples. Não é só o chocolate. Não é só uma “caça ao tesouro” muito bem arquitetada. Não é só uma espátula para me incentivar a cozinhar. É você no seu abraço, é você no beijinho delicado que você manda no final de um áudio. “Eu te amo” é pouco.

Eu, na minha neurose, esqueci como falar de amor.

Meu amor por você está na frustração de não poder ter tido a oportunidade de dormir com você na minha cama nova, no meu quarto pintado com a sua ajuda.
Está naquela cafeteria que olho e penso em como queria que você estivesse ali para tomarmos um café.
Está na minha auto-proibição em assistir o final da temporada de RuPaul, pois sem você não tem a mesma graça.
Está na raiva que sinto todos os dias por você não estar comigo.
Mas meu amor é paciente. Talvez como uma criança que pergunta mil vezes “Já está chegando?” numa viagem de carro. O cansaço toma conta, mas as expectativas por dias melhores superam (quase) tudo isso.

A cama já está bem amaciada. Vem logo?


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Nota para terapia (haha): Estava lendo meus textos antigos e reconheci um padrão. Uma puta raiva e vontade de me isolar.
Mas, ao mesmo tempo, frustração quando não me procuram.
Que padrão é esse?

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(Edit)

Talvez eu sinta tanta raiva porque as pessoas não são A pessoa.

Talvez a raiva seja minha forma de lidar com a tristeza.
Estar com raiva faz com que não doa tanto. Especialmente caso haja uma rejeição.
Pelo menos estou mais aberta. E menos "fuck you all".

O que me impressiona é que eu 'tava tão focada em certas pessoas que não vi o resto.
Espero não fazer de novo.

terça-feira, junho 25, 2019

Bagunça

Estou uma bagunça.
Antes eu já era, mas não sabia.
Tudo tão bem organizado em caixinhas etiquetadas.
Resolvi abrir uma. Percebi que a etiqueta não fazia sentido nenhum com o que tinha dentro.
E, por algum motivo, esqueci a relação por trás de cada peça da caixinha.
Resolvi abrir mais caixinhas em busca de encontrar a suposta lógica perdida.
Não tinha lógica.
Respirei fundo. Absorta.
O que fazer?
Repensar a minha lógica? Tentar achar outra?
Talvez recriar essa lógica ilógica?
Enquanto isso, remexo as peças, recombino umas com as outras, penso em me desfazer de umas e tentar conseguir outras.
Enquanto isso, admiro a beleza da bagunça ao mesmo tempo que me angustio e sonho com tudo em seu lugar.
Talvez seja meio chato, no fim das contas.
Tudo tão organizado em caixinhas tão bem guardadas. Escondendo a singularidade de cada pecinha.
Talvez fazer um mural?
Não, elas são minhas.
Tá bom, pode olhar um pouquinho.


quinta-feira, junho 20, 2019

Voltei?

Estou considerando voltar a escrever.
Eu escrevia tanto... Por que deixei de escrever?
Dizia eu para mim mesma que era a rotina pesada. Falta de inspiração.
Mas acho que, na verdade, eu não estava mais me permitindo fazer uma viagem a mim mesma.
Não escrever é não sentir.
Não escrever é não pensar.
Estava fugindo dessa conversa com o papel por não saber lidar com tudo que acontece em mim.
Uma tentativa de viver anestesiada.
Escrever, pra mim, é tocar na dor. É me deparar com aquilo que mais tento fugir. É tentar encontrar a minha verdade. É me expor para mim mesma.

Mas também esqueci dos prazeres da escrita.
Posso refletir, balancear, elaborar... E me conectar com tudo aquilo que é difícil formular em palavras. Mesmo que no fim das contas eu não consiga encontrá-las, ao menos eu tentei.
Também é uma forma de convidar o outro a me conhecer. Eu adorava a troca que isso gerava.

Ah, e escrever não precisa ser apenas tocar na dor. Ao abrir mão desse conflito, também abdiquei das delícias de amor e do dia-a-dia .

É, acho que estou pronta para retomar essa viagem.